Rádio Comunitária de Paracambi

Sintonize a resistência: a Rádio Paracambi FM 98,7 se tornou ponto de apoio, de encontro e de mobilização para os moradores da cidade

Por Ana Clara Cezário |

A Rádio Comunitária de Paracambi, RCP FM 98,7 MHz, foi fundada em 5 de novembro de 2008 com o objetivo de oferecer um espaço para a divulgação de ideias, expressões culturais, tradições e costumes da comunidade local. Seu propósito é garantir aos moradores um canal de comunicação voltado exclusivamente para eles, permitindo que compartilhem suas opiniões, participem de eventos da cidade, recebam notícias de interesse público e se envolvam em ações educativas, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida da população.

Com uma equipe composta por 26 profissionais, todos atuando como locutores e colaborando de forma integrada para o funcionamento da emissora. A programação é eclética e elaborada com base em pesquisas e no interesse do público, buscando atender aos diversos gostos dos ouvintes. Além de músicas variadas, a rádio oferece conteúdos informativos, como notícias locais, nacionais e internacionais, entrevistas, prestação de serviços e utilidade pública. A emissora busca manter uma grade organizada e variada, atendendo a diferentes perfis de ouvintes da região.

No estúdio da 98.7 FM, Rudson Santana, um dos fundadores da Rádio Comunitária de Paracambi, conduz mais uma transmissão ao vivo. Sua atuação diária reflete o compromisso da emissora com a informação local e a escuta ativa da comunidade. / Ana Cezário
No estúdio da 98.7 FM, Rudson Santana, um dos fundadores da Rádio Comunitária de Paracambi, conduz mais uma transmissão ao vivo. / Ana Cezário

Entre a paixão pela comunicação e a burocracia

Embora tenha sido oficialmente regularizada apenas em 2008, a rádio já estava em funcionamento desde o final da década de 1990, antes da criação de leis importantes como a Lei das Rádios Comunitárias (Lei nº 9.612/1998) e o Código Brasileiro de Telecomunicações (CBT). Na ausência dessas normas, não existia um marco legal que reconhecesse ou regulamentasse as rádios comunitárias, o que deixava muitas delas em situação de informalidade ou até mesmo de ilegalidade. Mesmo com as leis em vigor hoje, o processo de regularização continua sendo longo e burocrático.

Na Rádio Paracambi, esse processo demorou longos anos de perseguição, principalmente por parte da Polícia Federal. “A gente sempre ficava migrando para não ser fechado pela Polícia Federal. E em novembro de 2008, a rádio foi fechada, levaram todos os equipamentos, eu não estava na hora no estúdio. Levaram um locutor nosso detido, levaram computador, microfone, mesa de som. Quando eu cheguei no estúdio, não tinha nada”, lembra Rudson Santana, locutor e fundador da rádio. “Parece que a gente é um marginal, fazendo coisas fora da lei e tal”, acrescentou.

Mesmo em meio a dificuldades, os trabalhadores da rádio decidiram abrir o processo de legalização.

Microfone da Rádio 98,7 FM não amplifica apenas sons, mas transmite vivências de Paracambi. / Ana Cezário
Microfone da Rádio 98,7 FM não amplifica apenas sons, mas transmite vivências de Paracambi. / Ana Cezário

Entre o tradicional e o digital

Depois dos eventos de 2008 e do processo de reconstrução da rádio, a licença chegou em 2016. “Então a gente colocou, botou câmera, botamos um monte de tipo de circuito para a gente ter uma proteção, porque também para legalizar a rádio, eu precisava de dinheiro. E para ter dinheiro para legalizar uma rádio, eu precisava manter a rádio no ar para ter o recurso para fazer. E em 2016, a gente conseguiu ”, afirmou Rudson.

Com a rádio legalizada, o maior desafio se torna outro: manter a rádio viva. Manter a Rádio Paracambi no ar é uma tarefa cheia de desafios, principalmente porque se trata de uma rádio comunitária que depende do esforço voluntário e do apoio da própria população. Com recursos financeiros limitados e quase nenhum incentivo governamental, a equipe precisa se desdobrar para manter a programação, os equipamentos funcionando e os custos operacionais em dia. Muitas vezes, falta verba até para o básico como pagar contas de energia ou consertar um microfone.“A dificuldade hoje é financeira. Os equipamentos são caros. Hoje um transmissor de 25 watts que a gente tem que utilizar custa em média de 5 a 8 mil reais. Então a dificuldade é essa, a falta de apoio. A gente tem um pouco do apoio do comércio local. Os comércios fazem os anúncios aqui. O governo municipal no momento não está fazendo”, contou Rudson. “A gente não tá vivendo, a gente tá sobrevivendo, é limitado a ajustar as contas”, reflete.

Além disso, em meio ao avanço das tecnologias digitais, manter a rádio relevante é mais um grande desafio. Com o crescimento de serviços de streaming, redes sociais e podcasts, a atenção do público está cada vez mais dispersa e voltada para plataformas globais. A rádio compete agora com conteúdos sob demanda, altamente produzidos e com grande alcance. “A gente tem que acompanhar a tecnologia, a rádio hoje se tornou uma televisão, tem que ter uma câmera e tem que ter um canal no YouTube, tem que ter essa dinâmica e nós temos hoje o canal no YouTube, nós temos hoje o aplicativo do sistema Android, o IOS ainda não tem, mas tem um site também que você acompanha a programação”, afirmou.  Ainda assim, a rádio comunitária mantém seu valor justamente por oferecer o que esses meios não conseguem: proximidade, identidade local e interação direta com a realidade de Paracambi.

Mesmo diante dessas dificuldades, a Rádio Paracambi resiste, movida pelo compromisso com a comunidade local. A emissora atua como um instrumento de informação e integração social, incentivando atividades culturais, de lazer e de convivência entre os cidadãos. Além disso, presta apoio em situações de defesa civil e contribui para o desenvolvimento profissional nas áreas de jornalismo e radiodifusão, sempre respeitando a legislação vigente. Em uma cidade onde muitas vezes as grandes mídias não chegam com profundidade, a rádio comunitária cumpre a missão de visibilizar os moradores, divulgar eventos, valorizar artistas locais, compartilhar serviços públicos e promover debates importantes sobre os problemas da cidade. A rádio também oferece espaço para a própria população paracambiense atendendo chamadas e alugando programas aos moradores, fortalecendo os laços entre os diferentes grupos da comunidade. Ao manter uma programação feita com o povo e para o povo, a rádio se torna um verdadeiro ponto de encontro sonoro da cidade.

Fundamental no cotidiano e em situações de crise

Durante a enchente que atingiu Paracambi em 2024, a importância da rádio ficou ainda mais evidente. Enquanto muitos moradores enfrentavam perdas e desinformação, a emissora se manteve no ar para orientar a população sobre abrigos disponíveis, doações, ruas interditadas e ações da Defesa Civil, ajudando a minimizar danos.  Nesse momento de crise, a rádio provou que vai muito além da música e das notícias: ela é uma ferramenta de solidariedade, resistência e união para toda a cidade. “No dia seguinte da enchente, às seis horas da manhã eu estava aqui na rádio. A rua cheia de lama, carro revirado, ônibus parado no meio da pista e eu estava aqui às seis horas da manhã. Oito horas da manhã eu já estava na rua ao vivo na internet fazendo as lives", relatou.

Investir em inovação, buscar parcerias e envolver ainda mais a população são caminhos possíveis para manter viva essa importante ferramenta de comunicação local. Mais do que nunca, é preciso reconhecer e valorizar o trabalho dessas rádios, que não apenas informam, mas também cuidam, acolhem e unem comunidades inteiras em torno de uma mesma frequência: a da solidariedade e da transformação social. Em tempos de algoritmos e vozes automatizadas, ainda há quem mantenha viva a comunicação feita com afeto, proximidade e compromisso social. As rádios comunitárias resistem como espaços de escuta e fala, onde a palavra tem peso, e a notícia tem rosto.